Alfredo di Roma, uma leitura antropológica

26 de abril de 2015 § 33 Comentários

alfredo1

O Alfredo di Roma é, supostamente, um tradicionalíssimo restaurante italiano fundado em Roma (ô, né?) em 1910 (!) e que, segundo o seu site, hoje possui franquia em Nova York, Cidade do México e Salvador, onde aportou em 1993 tornando-se referência e assumindo o posto de melhor restaurante italiano da cidade há anos. E pode até ser mesmo, mas na categoria italiano clássico, pois hoje em dia há excelentes restaurantes italianos contemporâneos, e não dá mais para avaliar todos num mesmo bojo.

Estive lá esta semana para conferir o menu executivo da casa (é, bebê, não tá fácil pra ninguém) e a experiência inclinou-se mais para uma percepção antropológica do que gastronômica da casa.

As palavras tradicional e clássico, que usei até aqui, somadas à palavra caro, que não tinha usado ainda, impõem uma atmosfera branca e algo preconceituosa ao nobre salão. Veja bem, tudo muuuuuuito subjetivo. =)

Cheguei às 11h54, faltando portanto 6 minutos para o horário de abrir o restaurante, mas eu nem levantei essa informação, e achei até que já estaria aberto. Passei batida pelo manobrista, que muito ocupado ao telefone, não correspondeu à minha tentativa de contato visual. Empurrei a porta e foi quando constatei que estava fechado; aproximei o rosto do vidro para ver se havia alguém lá dentro e percebi um funcionário descontraidamente largado numa cadeira naqueles últimos minutos antes do batente. Eu esperei que ele pudesse vir até a porta e me informar que eles abririam em alguns minutos, ou pelo menos, mandar essa informação de forma gestual. Mas não. Ele apenas me viu, levantou e foi se ajeitar.

Neste momento um outro funcionário, que me pareceu um maïtre, entrou em cena neste meu ângulo de visão, me viu, e também apenas ajeitou a casaca. Era como se eles só enxergassem o cliente depois que ele cruza a porta. Tudo bem, andiamo.

Às 12h01, horário do meu celular, uma mulher, que depois confirmei a minha suspeita de ser gerente da casa, se aproximou, me viu e apenas destrancou a porta, sendo incapaz de abri-la para mim. Permaneci exatamente onde estava, olhando-a com um sorriso do gato de Alice até que ela entendesse a minha mensagem e abrisse a porta para mim, no que alarguei ainda mais o sorriso, agradeci com simpatia (e também um pouco – bem pouco- de cinismo, porque eu não sou obrigada), e percebi o seu enorme esforço, coitada, para sorrir minimamente de volta e responder ao meu boa tarde entre dentes.

Posso jurar que do alto do seu scarpin e cabelo à Chanel ela dizia por dentro “lá vem esses alternativos tatuados para comer o menu executivo”. Eu entendo. Não deve ser fácil, não é mesmo? Manter todo aquele glamour sem a força da classe média. Devem estar aprendendo a duras penas. Mas se estão aprendendo, é isso o que interessa.

Ignorei a indicação do garçom e escolhi a mesa mais estratégica para continuar os meus estudos antropológicos. Isto sorrindo sempre, lógico.

Fui bastante objetiva dizendo claramente que estava ali para experimentar o menu executivo, mas que gostaria de folhear também o menu da casa. Os garçons, corteses mas como contaminados pelo preconceito contra si mesmos, devem ter feito uma leitura positiva da minha postura, a julgar pela curiosidade com que lançavam olhares para mim e por um plus de simpatia que se estabeleceu veladamente entre nós.

Bem, agora quero falar do que é bom no restaurante: conforto, requintes de higiene, atendimento correto (depois de aberta a porta, lógico), e comida boa, independente do menu executivo, que são pratos do cardápio normal da casa, com pequenas alterações do tipo… o queijo ralado, ao invés de parmeggiano é pecorino para o executivo. Tudo super bem, né?

O menu executivo é composto de uma excelente salada de alface americana selecionadíssima e muito bem centrifugada, micro croutons deliciosos, lâminas de maçã verde e um molho bem fresco, algo cítrico. Estava perfeita e eu fiquei encantada com a azeiteira que me levou direto ao chapéu do Homem de Lata do Mágico de Oz. Devo ter sorrido.

Há, pelo menos, 4 opções de pratos principais. Escolhi um Pailard (bifes finos de mignon) com fettuccine (pela fama que a casa tem por esta massa) a la crema, e ambos os molhos estavam sal-ga-dís-si-mos.

A melhor parte foi a sobremesa, que nem é o momento mais esperado nas minhas refeições: um bolo de chocolate com amêndoas morno com sorvete de creme. Estava di-vi-no.

Fui de água de coco pois estava em horário de almoço, mas passei os olhos pela carta de vinhos e conferi valores de nacionais a partir de algo em torno de 58 a vinhos gringos de R$3.300,00 (!).

O menu da casa é bastante extenso, rico e sedutor, incluindo toda sorte de entradas, antipastos, massas, molhos, carnes e frutos do mar. Os preços dos pratos individuais variam de R$48 (massas mais simples) a R$95, com opções infantis e vegetarianas.

Mas voltando aos estudos antropológicos, entre a salada e o prato principal, surgiu de uma porta, num rompante, um senhor que pelo estilo, pisada e mesmo olhar de “lá vem esses alternativos tatuados comerem o executivo”, fui confirmar adiante, era o proprietário da casa. Daqueles que olham clientes diferentes do padrão esperado como invasores. Azar o dele, porque apesar de tudo, eu estava MUITO à vontade ali. A cadeira era macia e confortável, a toalha de mesa de um branco imaculado, e eu estava comendo Alfredo di Roma por preço executivo. Tão à vontade que relevei a ponta do prato de salada quebradinho e aquela musiquinha italiana clássica de pianinho irritante (mas ô, né?).

O Alfredo di Roma pode até ser o ou um dos melhores italianos clássicos da cidade, mas um bom restaurante para mim precisa ser muito mais do que isso.

Em tempo, a senhora Ines Di Lelio, neta do senhor Alfredo Di Lelio, faz esclarecimentos e acrescenta informações aqui nos comentários, a quem interessar possa.

§ 33 Respostas para Alfredo di Roma, uma leitura antropológica

  • Gabriela disse:

    Fui lá no último dia das mães, nunca fui tão mal atendida em um restaurante antes. O garçom, ou gerente, não sei, só faltou gritar comigo.

    Um amigo comentou comigo dias depois que o restaurante tem fama de destratar clientes que não tem certo “perfil”.

    Enfim, a comida não é ruim, mas não vale o preço nem de longe (não sei quanto é o executivo). Tem massa muito mais saborosa no Pasta em Casa, por exemplo.

    Enfim, fiquei meio angustiada por não ter reagido a grosseria, e só volto lá se for pra responder a altura se a atitude dos funcionários se repetir.

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  • mariana disse:

    Quando gostamos elogiamos e qd não, criticamos na hora mesmo para o responsável. Estudo antropológico ….e lavanderia virtual não são combinações elegantes. Acho feio criticar negativamente e abertamente o trabalho alheio; isto se faz pessoalmente e não mandando recadinho de longe.

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  • Luciana Rangel - RJ disse:

    Vc é uma figura, Katita, que relato ótemo!
    Me vi muito nele. Eu, pretinha carioca do subúrbio, já não espero muita cortesia quando vou aos restaurantes mais “tchans” daqui.
    Bj

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  • Roseane Almeida disse:

    ADOREI cada palavra, cada pausa, cada gesto, pude enxergar e me deleitar com cada cena. Gente pretensiosa, que esquece que a freguesia é que mantém as portas abertas, estender o tapete e o melhor sorriso seria o mínimo. Katita, vc é o CARA. Abraços.

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  • fecleao disse:

    Imagine se Alex Atala não fosse tão celeb como atualmente e, e resolvesse dar as caras no Alfredo, com seus braços tatuados e seu ar meio punk rock. Ou se o Julio Bernardo, com sua barba de Matusalém e sua pancinha de bom comedor sempre embalada em camisas de malha com cara de velhas, resolvesse aportar para provar o fettuccine…. Muito provavelmente seriam brindados com esse olhar de “la vem esses alternativos comer o menu executivo”. Como dizem por essas bandas virtuais, não digo nada, só observo! Massa o texto, rainha. Beijos.

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  • Ines Di Lelio disse:

    I tell you that also the restaurant Alfredo di Roma in Mexico City is linked to my restaurant and my family tradition.

    Best regards, grazie

    Ines Di Lelio

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  • Carla G disse:

    Fui ao Alfredo di Roma umas três vezes, apenas, quando vivia no Brasil. Nunca fui tratada com naturalidade, havia sempre um que de “você não pertence.” Depois paramos de ir porque, ne? Eu, morena, com marido branco e gringo, preciso ser seletiva em Salvador. Infelizmente, os maus tratos que colecionamos são difíceis de esquecer.

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  • Ines Di Lelio disse:

    HISTORY OF ALFREDO DI LELIO CREATOR IN 1908 OF “FETTUCCINE ALL’ALFREDO”, NOW SERVED BY HIS NEPHEW INES DI LELIO, AT THE RESTAURANT “IL VERO ALFREDO” – “ALFREDO DI ROMA” IN ROME, PIAZZA AUGUSTO IMPERATORE 30

    With reference of your article, I have the pleasure to tell you the history of my grandfather Alfredo Di Lelio, who is the creator of “fettuccine all’Alfredo” in 1908 in the “trattoria” run by his mother Angelina in Rome, Piazza Rosa (Piazza disappeared in 1910 following the construction of the Galleria Colonna / Sordi).
    More specifically, as is well known to many people who love the “fettuccine all’Alfredo”, this famous dish in the world was invented by Alfredo Di Lelio concerned about the lack of appetite of his wife Ines, who was pregnant with my father Armando (born February 26, 1908).
    Alfredo di Lelio opened his restaurant “Alfredo” in 1914 in Rome and in 1943, during the war, he sold the restaurant to others outside his family.
    In 1950 Alfredo Di Lelio decided to reopen with his son Armando his restaurant in Piazza Augusto Imperatore n.30 “Il Vero Alfredo” (“Alfredo di Roma”), whose fame in the world has been strengthened by his nephew Alfredo and that now managed by his nephew Ines, with the famous “gold cutlery” (fork and spoon gold) donated in 1927 by two well-known American actors Mary Pickford and Douglas Fairbanks (in gratitude for the hospitality).
    See also the website of “Il Vero Alfredo” http://www.ilveroalfredo.it, which also contains information on franchising.

    I must clarify that other restaurants “Alfredo” in Rome do not belong to the family tradition of “Il Vero Alfredo – Alfredo di Roma” in Rome.
    I inform you that the restaurant “Il Vero Alfredo –Alfredo di Roma” is in the registry of “Historic Shops of Excellence” of the City of Rome Capitale.

    I want to clarify that in Brazil the only Restaurant “Alfredo di Roma” in Salvador de Bahia has linked to my family tradition and to my restaurant in Rome.

    Best regards Ines Di Lelio

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  • Eloisa disse:

    Oi querida, depois de muito tempo caladinha você me fez lembrar a boneca Emília do Pica-pau Amarelo, que depois de engolir a falinha do papagaio desandou a falar sem parar! Sorte a nossa… Pensei que havia um Alfredo aqui no Rio, fui há muitos anos, e bota ano nisso. Existe um em São Conrado, mas ao que parece não é original, é isso? Por favor, não suma outra vez, ok?

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  • lgeraldos disse:

    Teu texto é puro cinema. Vc escreve e eu assisto a cena. Saudades.

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  • Niúra disse:

    Adorei, “manter o glamour sem a força da classe média”diz tudo!

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  • Celly disse:

    Ouvi do médium Gasparetto a seguinte observação :As pessoas nunca estão na média , estão sempre acima ou abaixo do tom.O dinheiro não nos faz elegantes.A educação nos faz simples,porque como se diz por aí, não há nada mais elegante do que a simplicidade.Cadê o treinamento, pra essa gente? Paris é logo ali.O SEBRAE também. rsrsrs

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  • Leticia disse:

    Tem esse restaurante em Curitiba tb! Acho a comida bem mais ou menos…. É muita pompas propaganda pra pouco sabor! Fui algumas vezes até comer o pior nhoque de todos os tempos! Aí desisti! Acho a Cantina do Délio muito mais aconchegante e saborosa!

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  • Marcelo Praddo disse:

    Pois é…temos muuuuuito o que aprender, no quesito “serviço”!

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  • Rachel Chamusca disse:

    rsrsrsr … Sempre deliciosa essa sua prosa!
    Queria muito estar avec toi nesse momento sócio antropológico!!
    Saudade.

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