Cozinha de convento

23 de abril de 2014 § 23 Comentários

convento1

O meu primeiro trabalho do ano teve um quê de benção. É que pela primeira vez cozinhei num convento, sob a proteção do padroeiro da pequena cidade histórica de Cairu, ninguém menos que São Benedito, o protetor dos cozinheiros.

Eu voltava, exausta, de uma maratona de duas semanas em Maraú cozinhando para os Graham, mas tinha no caminho de casa, uma outra missão: realizar em Cairu o mesmo coquetel que havia feito alguns meses antes para a abertura da exposição Carybé Ilustra Jorge Amado no Solar do Ferrão, no Pelourinho de Salvador. É que não satisfeita em oferecer apenas um serviço bacana, me debrucei sobre a obra de Jorge Amado para criar o cardápio da noite, atividade batizada pela amiga produtora Fabiana Pimental como curadoria gastronômica, e rapidamente incorporada ao meu portifolio, como algo que eu sempre fiz mas nunca batizei. E o resultado foi tão bom, mas tão bom, que a produção e a família Carybé me convidaram para integrar a exposição itinerante onde quer que fossem, começando pela lindíssima Cairu.

cairu1

Quando pousei os meus olhos naquela encantadora cidade histórica meio fantasma à noite quando chegamos, eu e a minha querida assistente (que estava colada comigo desde Maraú) e quando ao acordar de manhã e sair da pousada dei de cara com aquela paisagem de barquinhos cruzando o mangue até a Ilha de Tinharé (onde repousam paraísos como Morro de São Paulo, Boipeba e Garapuá), me senti totalmente revigorada e doida para conhecer a cozinha do convento onde estava sendo montada a exposição.

Tive que montar um esquema ninja para que esse coquetel desse certo, porque eu não conhecia o mercado da região, não poderia trazer alimentos de Maraú, pois não há; não conhecia fornecedores que pudessem alugar a louça, tampouco mão de obra local (lê-se garçons). Consegui o contato de um rapaz que gozava de boa reputação na região, o que realizava os eventos mais importantes da região. Tive que acreditar um pouco na sorte, mas não muito. Por cautela, combinei com a minha produtora, fotógrafa e fiel escudeira, que ela faria as compras em Salvador e partiria para Cairu para nos encontrar, chegando em tempo para solucionar eventuais furos da produção local, o que foi providencial. E no final das contas, apesar de alguns transtornos que conseguimos contornar juntas e sorridentes, pois felizes por estarmos ali, e apesar do figurino dos garçons, foi lindo. =)

O Convento e a cozinha

Construído em 1654, o Convento de Santo Antônio, em Cairu, é a primeira manifestação da arquitetura Barroca no Brasil, uma obra prima de enorme importância, tombado pelo IPHAN em 1941.

Entrar na cozinha de ares medievais do convento foi como entrar numa obra de Caravaggio. Era noite quando chegamos e fomos recebidos por uma revoada de morcegos batedores meio que anunciando a nossa chegada aos espíritos moradores, e desde então me senti observada de todos os ângulos por cozinheiros e cozinheiras que por ali passaram desde o século XVII. Tive que pedir licença, senti até um certo medo daquela atmosfera austera, secular, algo decadente, carregada de tanta história católica.

Mas quando voltei pela manhã e vi tanta luz natural invadindo o edifício por todas as suas frestas e portas e janelas seculares, senti uma enorme alegria e gratidão pela oportunidade de produzir a primeira comida do ano naquele lugar. Pedi inspiração à imagem de São Benedito estrategicamente postado ao centro de uma das bancadas de fundo, flori a cozinha, já devidamente lavada de chão e parede nas vésperas, e arregaçamos as mangas para preparar a comida de Jorge.

O vernissage

Além de produzir o coquetel, eu tinha a incumbência de dar um grau no pátio central onde aconteceria o vernissage matinal. O dia estava lindo, de um azul retumbante, mas apesar da mágica arquitetura, dos ricos azulejos, pilastras e arcos abatidos, a estrutura encontrava-se em franca decadência, com os telhados destruídos e estrutura apoiada por escoras de madeira em diversos pontos em torno do claustro; uma total ausência de senso estético com enormes caqueiros e plantas secas distribuídos por toda parte, gambiarras de fios cruzando o espaço aéreo, causando um enorme ruído visual. Era necessário limpar não só a sujeira, como também aquele monte de informação, beneficiando a apreciação de obra arquitetônica e, obviamente, da exposição. Foi necessário improvisar um fechamento do telhado com um forro de malha branca chapada, o que já modificou/aliviou/revigorou sobremaneira os corredores onde estavam dispostos os mobiliários expográficos. Escolhi as plantas mais legais e dispensei as demais para um outro pátio de apoio; pedi para que fossem muito bem aguadas desde a véspera e também logo cedo, e juntei-as todas no centro do pátio, compondo um pequeno jardim, ladeado por quatro bancos do convento, compondo assentos para o coquetel. Sumi com todos os fios; bisbilhotei as dependências e resgatei peças do lindo mobiliário, quase todas bastante comprometidas e carentes de reforma urgente. Depois vieram as flores para ornar o ambiente, e ao final de tudo isso, fiquei muitíssimo feliz com o resultado, de maneira que o público da cidade, depois de sair de uma pequena palestra, foi recebido com bebidas geladas e comidinhas de Jorge, em seu lindo convento, sob céu azul e algazarra de passarinhos.

Salve Santo Antonio! Salve São Benedito! Salve Jorge Amado! Salve Carybé!

§ 23 Respostas para Cozinha de convento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Cozinha de convento no Pitéu.

Meta

%d blogueiros gostam disto: