Diário de Bento Gonçalves

30 de abril de 2013 § 34 Comentários

bento entrada
(o portal para a cidade do vinho só poderia ser uma enorme pipa)

Fui a Bento Gonçalves (RS) semana passada a trabalho, a convite da Todeschini, que está lançando uma nova linha de móveis chamada Identidades. Para ilustrar o mobiliário de cozinha, convidou 8 chefs brasileiros (chef, eu?) de diferentes regiões deste imenso e diverso país para defenderem cada um, um produto típico de sua região, contextualizando este produto na cultural local e produzindo uma receita. Este conteúdo será veiculado no formato webserie em 8 programas ainda neste semestre.

O tempo era curto. Conexões de ida e volta e trechos de estrada de POA-Bento Gonçalves-POA, mas de acordo com a minha agenda, eu teria duas noites livres para turismo gastronômico, e dois turnos livres para escolher entre 4 passeios: Vale dos Vinhedos, Caminhos de Pedra, Maria Fumaça ou Vale do Rio das Antas. Acontece que um destes turnos supostamente livres foi ocupado pelo trabalho que se estendeu tarde adentro, mas como foi uma experiência deliciosa e muito gratificante, um passeio a menos não doeu tanto, até porque, jurei para mim mesma que não sossego enquanto não levar a minha mãe o meu filho para conhecer a Serra Gaúcha o mais rápido possível.

bentocity
(o amanhecer em Bento Gonçalves do décimo andar do Hotel Lagueto Viverone | hotel excelente nos quesitos conforto e serviço, mas que deixa a desejar na comida | Café do Hotel, lindo de morrer, serviço gentil, mas a comida também deixa muito a desejar, embora estes dois lugares não representem a deliciosa gastronomia local, que falo adiante | Catedral de São Bento | Monumento dos Imigrantes | um pequeno exemplo da singeleza das casas da cidade)

Bento Gonçalves é uma cidade encantadora em suas ladeiras íngrimes, sua limpeza, ordem, neblina, preservação de suas tradições italianas, receptividade e invejáveis serviços prestados, especialmente para quem convive diariamente com o padrão soteropolitano. Os prestadores de serviço para turistas são treinados com primor, e até a atendente mais fria, certamente vai te prestar um serviço excelente. As casas, de um modo geral, mesmo as mais modernas, carregam traços da arquitetura colonial. Não fosse pelos jardins frondosos, de roseiras rigorosamente podadas, e pela manutenção cuidadosa das casas, eu poderia jurar que estava numa cidade fantasma às 16h em alguns trechos perto do hotel, numa região mais nova e bastante nobre da cidade. Mas não, era quase possível enxergar as senhorinhas e senhorinhos italianos ou descendentes, daqueles tradicionais, conservadores, e que não gostam de baderna, por trás daquele capricho todo, encerrados por trás das graciosas cortinas de linho branco.

pessoas_bento
(Como são gentis as pessoas que me serviram em Bento: Lore, a única manicure on numa segunda-feira. Hilária e gauchérrima de Santana do Livramento | a Iva, minha doce, hilária e gauchérrima taxista e guia pelos inesquecíveis Caminhos de Pedra | o único negro que vi em 3 dias na cidade, trabalhava no restaurante do hotel e era do Haiti (e eu que pensei que o negão era baiano, e que eu estava em casa, quando bati os olhos nele) | o Evandro, garçon mó boa praça do Restaurante Canta Maria | Seu Darcy, que fez o transfer Canta Maria-hotel: pense num italiano gente fina, doce, que dá vontade de apertar! | o Paulo, jovem herdeiro da Casa da Erva-Mate | recepcionistas da Casa do Tomate | meninas fofas da Casa de Tecelagem | o Daiam, que fez meu transfer POA-Bento, cortês demais da conta | um senhor descendente de italianos caminhando na pista dos Caminhos de Pedra)

Localizada num forte pólo industrial de móveis, sapatos e vinhos, percebi um comércio forte, de preços bastante convidativos. Sorte a minha não ter tido tempo para explorá-lo. Deus sabe o que faz. No quesito gastronomia,vou logo avisando: Bento Gonçalves come MUITO BEM e MUITO, embora todos os melhores restaurantes ofereçam praticamente o mesmo cardápio e o mesmo esquema de rodízio com seguinte roteiro: capeletti in brodo – frango al primo canto e vitela com saladas, radicchio com bacon, polentas, queijos fritos, conservas, salada de maionese, entre outros acompanhamentos que não param de chegar e serem repostos; e quando você acha que vai desfalecer de tanto comer, começam as massas, poucas opções, mas MUITO boas. Isso sem falar na carta de vinhos excelentes e nas sobremesas, especialmente o tradicional sagu com creme, de comer rezando. E como é barato! Estes rodízios, nos melhores restaurantes da cidade, custam de R$35 (Nona Ludia) a R$49 (Canta Maria), preço que pagamos aqui por uma entrada num bom restaurante. Fiquei passada (e feliz). Soube porém, por um local, que estes restaurantes ainda são caros para alguns moradores, que, em geral, bem… não gostam muito gastar dinheiro.

E tem mais! Ninguém cobra taxas, nem mesmo de forma discreta. No hotel por exemplo, fui recepcionada por um discretíssimo concierge que desapareceu com a minha bagagem enquanto eu fazia o check in. Pensei que o encontraria no meio do quarto, mas tudo que eu encontrei foi a mais confortável solidão de um quarto lindo e impecável esperando por um corpo cansado.

cantamaria
(momento deliciosa solidão à mesa do Canta Maria)

Deu para conhecer dois restaurantes excelentes: o Canta Maria, na entrada da cidade, minha comida preferida e melhor momento sozinha numa mesa de canto observando o movimento da casa, enquanto me aquecia com um Merlot Boscato delicioso e comendo como se não houvesse amanhã; o outro foi o Nona Ludia, que além da comida delicosa (mas não tanto quanto o Canta Maria) e serviço preciso (mas não quentinho), funciona numa antiquíssima casa de pedra num bucólico cenário a la Passione (algumas cenas de fato foram gravadas por ali) dos Caminhos de Pedra.

nonaludia
(o que deu para registrar do Nona Ludia, antes da bateria do celular acabar; última refeição antes de voltar correndo para POA. Não deixe de comprar o suco de uvas da casa e se não experimentar o sagu, não fale mais comigo!)

Fiquei bastante impressionada com a fábrica da Todeschini, especialmente com o prédio do showroom, luxo poder e cobiça, onde tive a oportunidade de gravar com uma moçada ponta de lança, tipo gente dos Destemperados (Marketing na Cozinha), Capsula Filmes e Bem Legaus.

todeschini

A idéia era defender o nosso dendê, mas acabei levando, além do nosso melhor azeite da Costa do Dênde, a nossa melhor farinha de mandioca (de Nazaré das Farinhas), e todas as cores e sabores das nossas pimentas todas, ardidas, de cheiro, doces. Tudo para fazer uma rica casquinha de siri com crostinha de farofa de dendê, que foi a minha melhor casquinha de todos os tempos, para a felicidade do set faminto de tempero baiano (ô povo que gosta de pimenta!). De lembrança, além de mais uma experiência em audiovisual e branded content, e dos momentos legais com aquela equipe quentinha, um sabre lindão de presente.

cpedra
(Casa do Artesanato, mas é o cheiro de biscoitos saindo do forno que fica na memória. Degustações deliciosas para acertar nas escolhas)

Mas, sobre o passeio escolhido… como falei lá no início, o tempo ficou curto e eu tive que escolher apenas um passeio. E contrariando a todas as expectativas, preferi o bucolismo dos Caminhos de Pedra ao glamour das vinícolas do Vale dos Vinhedos, até porque eu ia ficar louca, ia querer entrar em todas as vinícolas, o que não seria possível em apenas 4 horas, enquanto que este tempo foi perfeito para percorrer os Caminhos de Pedra, onde vislumbrei diante dos meus olhos a história da chegada e instalação dos imigrantes italianos num cenário por certo algo familiar, que eles foram encontrar nesse pedaço de Brasil.

barracao

O povoado de Barracão, foi a minha primeira parada dos Caminhos de Pedra, atraída pelo castelo onde outrora funcionou uma fábrica de uísque.

casa do tomate

Fiquei maluca na Casa do Tomate! Antepastos, molhos, doces, geléias, refrigerantes naturais, cervejas artesanais, e até cosméticos. Pirei na degustação e queria trazer pelo menos uns 10 ítens. Imperdível!

cpedras2
(encantadora casa de pedra, que como muitas foi abandonada quando passaram a envergonhar os seus donos, que passaram a cobiçar as de madeira, que antecederam a alvenaria, numa evolução de status social campestre | detalhe da lojinha da Casa do Tomate | árvore que serviu de abrigo para muitos imigrantes, localizada na propriedade do restaurante Nona Ludia, e hoje habitada por uma cadela muito carinhosa que me deu um baita banho de língua | caquis e jardins de pedra | ovelhas voltando do pasto | a Casa da Ovelha, outro passeio imperdível com venda de produtos derivados, de queijo feta a gorrinhos, numa lojinha muito charmosa)

tecelagem
(Casa da Tecelagem: vontade de morar na loja).

quatrilho

Propriedade da família Strapazzon, onde foi filmado O Quatrilho, de Fábio Barreto. Degustação de vinhos de mesa, sucos e grappa nos porões da casa de pedra onde as famílias desciam para dormir entre os animais para resistir ao frio, e onde hoje são guardadas pipas cheias de vinho. Há degustação de embutidos e queijos meia-cura deliciosos. Não deixe de comprar muitos alfajores, são incríveis.

mate

Última parada dos Caminhos de Pedra, antes de voltar para almoçar no Nona Ludia: a Casa da Erva-Mate, de grande carga cultural gaúcha. Há muito mais coisas entre o gaúcho e o chimarrão do que supõe a nossa vã filosofia.

O frio, a presença velada da história, o acolhimento do povo e da paisagem belíssima esmagadora de corações daquelas serras e vales e vinhedos tão floridos e frutados, mesmo nessa época não tão propícia, foram a experiência mais linda que a viagem poderia ter proporcionado à minha vida. Não vejo a hora de voltar.

Dedico este post à minha grande amiga Rachèl Chamusca, com todo o meu amor.

§ 34 Respostas para Diário de Bento Gonçalves

  • Aline disse:

    Amei sua postagem! Emocionante. Você tem uma sensibilidade incrível…Isso é o que chamo de viver!!!

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  • diogo disse:

    eita e como foi bom isso tudo!!!!!!!!

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  • Evelyn disse:

    Hummm, deu vontade de ficar ryca logo e partir pra conhecer esse brasilzão de meu deus! hahaha

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  • folhinhas disse:

    Claro que ele faria, Katita.
    E feliz da vida.
    bjs mil
    cla

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  • folhinhas disse:

    Katita, querida.
    Lindo o seu relato. Tão sensível a tudo e todos.
    Boa notícia: você terá que voltar muitas vezes.
    Até saber que as árvores do centro da cidade são perfumadas na primavera, e que os sinos da Santo Antônio são os mais lindos do mundo ( tenho procurado outros… até agora , nada.), que os Jacarandás pincelam a cidade de violeta ? azul? na primavera.

    Talvez não sinta o cheiro da torrefação de café perfumando a cidade nas tardes de inverno frio,, ou o de biscoitos nas noites que antecediam chuvas fortes. Ou o cheiro dos fogões à lenha , da polenta na chapa….são coisas da minha infancia em Bento. Mas terá outros cheiros só seus.

    Tenho amigos, aqui do Rio, que vão à Bento ( uma pousada incrível é : http://www.borghettosantanna.com.br/) todos os anos e percebem que a cidade sempre se mostra diferente.
    A cada estação a paisagem muda radicalmente. As folhas mutantes das videiras dão as dicas logo de cara.
    Legal é se perder pela cidade procurando vinícolas particulares , fabricas de doces, restaurantes caseiros típicos.
    É uma cidade super segura e as pessoas locais são muito receptivas.
    Adoram uma conversa sobre a sua terra.

    bjs
    Cla

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  • Eleonora disse:

    Adoro ler suas postagens. Realmente você escreve com a alma.
    E esse relato ficou lindo e emocionante, principalmente para nos descendentes de italianos. Prestei a maior atenção pois minha próxima viagem será lá. Estou escolhendo o hotel, você viu algum interessante?

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  • Krys disse:

    Katita,
    A família do meu ex-marido é do Rio Grande do Sul e tanto as comunidades de origem italiana quanto as de origem alemã sempre me inspiraram essa admiração – as casas bem cuidadas nos mínimos detalhes com suas cortinas delicadas e jardins floridos; as cucas e geléias preparadas em casa; a disposição para o trabalho dedicado e constante e principalmente a amizade demonstrada pelas pessoas de lá.
    Uma vez uma tia dele me deu a definição perfeita: as pessoas não são muito de fazer amizade de primeira, mas quando o fazem é por completo – você conhece a casa, mãe, filho, cachorro, papagaio… Me deu saudade agora…

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  • Izabel de Lima Adão disse:

    Lindo o seu diário de viagem, Katita. Fiquei com vontade de conhecer Bento Gonçalves, mas não vou perder a visita às vinícolas. Afinal, eu e o vinho temos algo assim… de vidas passadas!

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  • Erika disse:

    Ka, que delícia, que saudade desta terra tão gostosa, gentil e bonita!!!
    Sua narrativa e imagens me fizeram viajar, voltar no tempo…chego a “sentir” os cheiros e sabores do sul.
    Tudo continua lindo, caprichoso e delicado!
    Que saudade!!!
    Obrigada por me proporcionar essa deliciosa sensação!
    Bjs!

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  • Ana Luiza disse:

    Que lindo, Katita! Lindo o seu registro de viagem! Fiquei morrendo de vontade de conhecer. Estive muito pouco pelo nosso sul, sempre a trabalho e rápido.

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  • Viviane disse:

    Descrição perfeita da Serra Gaúcha… Os cheiros, os sabores, a nostalgia, a atenção dispensada a nós turistas… Que saudade, que vontade voltar…

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  • Leni disse:

    Katita!!!!
    Amei cada pedacinho desse post, cada dica que vc deu esta aqui anotadinho pra minha viagem!!! O problema é a comilança né!!! Vou ter que malhar muito todas as manhas porque senão depois de uma semana em Bento as roupas não me servirão mais!!! Tinha quase descartado o passeio do caminho das pedras, escolhi as vinícolas e a Maria fumaça porém depois do que li aqui vou botar mais esse passeio na programação!!!
    Beijocas
    Leni!!

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    • Katita disse:

      Que bom que o meu post vai ter ser útil, Leni. Lembre de mim nos Caminhos de Pedra!
      E sim, se eu morasse em Bento não pesaria menos de 80kg.
      =)
      Beijo enorme e boa viagem! Me conte tudo depois!
      K.

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  • Giovana disse:

    Katita, me emocionei muito ao ler o seu diário. Sou Catarinense, mas meus avós, descendentes de Italianos, nasceram nesta região que você visitou. Logo que se casaram ganharam de herança um pedaço de terra em SC para começar a vida e então deixaram a serra gaúcha para fazer a vida na serra catarinense. Meu avô cultivava uvas e fazia seu próprio vinho. Toda esta culinária lembra muito minha infância e é claro, traz boas lembranças. Enfim, achei linda a forma como você falou do povo e da cultura da região. Um beijo grande e abraço quentinho!!!

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    • Katita disse:

      Giovana, também eu me emocinei demais com a presença velada dos seus antepassados naquele cenário. Que bom! Fico tão feliz, que você nem imagina. Emocionada e feliz. =)
      Beijo carinhoso,
      K.

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  • Saudades… definitivamente nasci no estado errado. :((((

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  • Rachel Chamusca disse:

    Ai, Katita! Ao ler o diário de sua encantadora viagem ja achei o post a minha cara…parecia que voce via a paisagem com meus olhos e a relatava com palavras que poderiam ser as minhas… então leio que voce dedicou o post a mim !!!!!
    meu velho coração de manteiga não aguenta anta emoção, assim, quase na aurora do dia!!!
    agradeço a homenagem com todo meu amor!
    parabéns pelas conquistas!
    meu grande afeto.

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  • Adriana Marinho disse:

    Katita,
    Que bom que teve essa experiência , mas muito cuidado com a Todeschini, caímos no seu conto e se quiser lhe apresento o material deles ao vivo, inclusive.
    A colocamos na justiça pela péssima prestação de serviço, falta de respeito com o cliente, e qualidade de material, não sei vc sabe mas eles fecharam as portas da noite para o dia e não nos deram a mínima satisfação. (LOJA BARRA)
    Muito cuidado mesmo, não indico a Todeschini a ninguém.
    Abs,
    Dri Marinho.

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