A pequena fábrica de sonhos da Katita

2 de março de 2013 § 51 Comentários

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Brincando brincado, hoje em dia eu vivo praticamente da comida que faço. É surpreendente o desdobramento de vertentes que se abriram para mim dentro deste universo, desde que comecei a escrever em blogs e cozinhar em festas de amigos, a coisa de uns 12 anos atrás. Foram festas que se profissionalizaram com a ajuda do curso superior de Decoração e curso de cozinheira do SENAC, publicidade em blogs, livro, catering, camarins, cursos, consultorias, palestras, webserie, um brincar de restaurante em casa, e mais recentemente, uma aproximação cada vez maior da arte, o que se justifica pela minha formação em produção e gestão cultural anterior, e e até certo momento paralela, aos fazeres culinários.

Tenho feito não apenas coquetéis para vernissages, festival de cinema, mostra de artes cênicas, que qualquer profissional ou bufê pode fazer, mas eventos e consultorias conceituais para experimentos artísticos; assinado cartas de anuência para projetos artísticos contemporâneos que dialogam com a gastronomia em algum momento, enfim, projetos para os quais é necessário não apenas ser um bom cozinheiro, mas ter uma capacidade de fruição de arte, duas coisas que sempre correram em paralelo na minha vida e que agora se juntam de forma mais coesa. Não que eu tenha encontrado “o nicho” da vida, porque nunca fui mulher de um nicho só, mas este me proporciona ENORME prazer.

Tá, mas o quê que isso tem a ver com a pequena fábrica de sonhos da Katita?

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(fotos: DJ Riffs e Zeza Maria, respectivamente)

Eu fui convidada para desenvolver uma receita exclusiva de sonhos para uma casa de eventos artísticos que será inaugurada em breve aqui em Salvador, cujo nome é Lálá, palavra do iorubá que está relacionada com o sonhar. A idéia seria revelar o nome da casa (que já funciona em caráter informal e experimental há algum tempo como Casa Branca) no dia 02 de Fevereiro, a festa de largo mais bombada de Salvador, que homenageia Iemanjá, a Rainha do Mar, no bairro do Rio Vermelho. Foi produzida uma festa colaborativa na casa, com a participação de diversos artistas de várias linguagens, cada um com sua oferenda. Uma festa linda, que começou desde a véspera, com a saída do cortejo para a entrega das oferendas, passou pela alvorada, e seguiu adiante durante todo o dia com música, live paints, performance, comida, bebida e muita música. O nome da casa seria revelado aos poucos, através de performances artísticas, e a mim me foi confiado o momento máximo, onde durante um show da Mariella Santiago, diva negra da música chique da Bahia, com participação de ninguém menos que Anelis Assumpção, eu ofereceria os meus “lálás”, que caíram do céu em formato de nuvens de sonhos, feitos por Tai Oliveira, outra artista colaboradora. Lá embaixo, na rua, para onde o show estava voltado, o dono da casa, o carismático e querido por todos Ricardo Dantas, recebeu as nuvens e ofereceu os lálás ao público, que a essa altura já fazia idéia do significado do nome e da oferenda, graças a todas as pistas artísticas, mas só naquele momento totalmente revelado.

Foi uma experiência incrível, porque É GENTE naquela festa, viu?! Quando cheguei na janela do primeiro andar da casa, sobre a varanda onde acontecia o show, tive vertigem de tanta gente. Eram 240 sonhos, dez nuvens que desceram flutuantes em nylon para oferecer o sabor da casa aos amigos e convidados lá embaixo. Comida e Arte juntas de novo; eu, instrumento.

Ok, computer, mas o povo quer a receita de sonho, confere?

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Como eu disse para vocês, desenvolvi uma receita exclusiva de sonhos para a casa e para a ocasião, e desde o início tive uma certeza: eles seriam pequenos, devoráveis numa bocada só, e não teriam recheio tradicional de goiaba (que eu amo), mas de… maracujá. A “fruit de la passion”, “passion fruit” deveria rechear aqueles sonhos, era certo. Parti para campo, e para definir a massa, pesquisei receitas, conversei com uma quituteira amiga minha, fiz uma experiência em casa (foto) e acabei contruindo a minha receita de massa inspirada pela mistura da receita de Fara (esta amiga quituteira, que usa leite condensado na massa) com a receita da Palmirinha, que das tradicionais, me pareceu a mais legal da net, mais um toque meu de anis, e alterações de proporções nas quais acredito. O recheio, totalmente instintivo, saiu na hora.

Não reparem se n’algum momento a analogia confundir o sonho produzido pela farinha com o sonho produzido pela mente e desejos, são as duas coisas se fundindo mesmo. Mas se esse pensamento for muito raribô para você, basta justificar o nome do pitéu como uma associação a uma coisa muito boa, que a gente fecha os olhos e viaja quando come.

Chegamos finalmente à receita:

Sonhos da Katita (para 50 sonhos médios)

Para a massa: 1 envelope de fermento biológico para pão (químico é só para bolos e biscoitos, pense nos sonhos como pães) | 800g de farinha de trigo | 8 colheres de sopa de leite condensado | 3 colheres de sopa cheias de manteiga ou margarina | 2 ovos | 1/2 xícara de leite morno fervido com 2 estrelas de anis | óleo para fritar | açúcar e canela para polvilhar.

Modo de preparo: Junte a farinha, a manteiga, o leite condensado, os ovos levemente batidos e o fermento dissolvido no leite morno, de acordo com as indicações do envelope. Misture bem e sove a massa numa superfície enfarinhada. Faça bolinhas do mesmo tamanho. Se você não tem a manha de fazer bolinhas do mesmo tamanho, abra a massa com um rolo e use um molde de biscoitos redondo para cortar as porções individuais, depois é só fazer a bolinha. Deixe descansar por 30 minutos antes de fritar e vá fazer o recheio enquanto isso.

Para o recheio, eu coloquei numa panela 1 lata de leite condensado, a mesma medida de suco concentrado de maracujá (polpa de 4 maracujás pulsados no liquidificador com 1/3 da lata de água e depois coados), 1 colher de sopa de amido de milho diluída neste suco, 1 pitadona de sal, e raspas de 1 limão siciliano ou de 2 mirins. Misture bem e mexa em fogo baixo até o ponto de creme. Reserve.

Uma vez dobrada de tamanho a massa, é hora de fritar os sonhos numa fritadeira ou numa panela compacta com bastante óleo de sua preferência (desde que virgem), em óleo quente, mas fogo mediano. É muito rápido, logo eles estarão fritos, porque os sonhos são mágicos, e você nem precisa se preocupar porque geralmente os sonhos se viram sozinhos, mas fique atenta para fazê-lo tão logo eles dourem de um lado, e vire-os delicadamente apenas uma vez. Frite no máximo 8 de cada vez, se for muito ágil, e se couberem na panela, porque se você colocar muitos não dará conta de tirá-los todos de uma vez, a menos que esteja usando uma fritadeira com escorredor, e eles ficarão diferentes em tempo de cocção e cor. Os sonhos merecem toda atenção.

Escorrar-os em papel absorvente abundante, de preferência trocando este papel algumas vezes. Experimente um, assim purinho, e veja que crocante e macio, como um… sonho! A próxima etapa é envolvê-los numa mistura de açúcar e canela para só depois recheá-los. As pessoas normalmente colocam pedaços de goiabada dentro da massa, que derretem na hora de fritar, ou mesmo cortam os sonhos ao meio depois de fritos para recheá-los com a goiabada derretida. No meu caso, que fiz um creme de maracujá para rechear mini-sonhos, usei uma espécie seringa plástica para fins de recheio em uso culinário que eu adquiri numa dessas lojas de 1,99, e que é mão na roda, e fica foférrimo! É abrir um buraco até o meio do sonho usando o dedo e rechear com a seringa/bisnaga.

Sonho é bom de comer na hora, fresquinho e crocante, mas se bem acondicionados num frasco de vidro, ficam bons por até 3 dias.

Ah! Os sonhos precisam respirar por dentro! Por isso, só funcionam com fermento biológico, que oxigena a massa e permite a formação de bolhas lá dentro que os deixam fofinhos, ao contrário do químico que deixa as massas compactas, como esperado nos bolos e biscoitos. Se você utilizar fermento químico para sonhos, eles solarão. Falo por experiência própria.

Sonhos são importantes. E afetivos.

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