Nilda: uma máquina de fazer comida afetiva

27 de junho de 2012 § 29 Comentários

Eu admiro muito as pessoas que driblam a crise com criatividade, garra, e sobretudo, bom humor. Quando elas conseguem isso fazendo o que gostam, tanto melhor! Quando são cozinheiras, eu geralmente me apaixono por elas. Não é à toa que eu criei a sessão Comida Ambulante lá no Rainhas do Lar(que já trouxe para cá), e não é à toa que quando encontro pessoas especiais como a Nilda, pego a minha câmera, peço licença, puxo um banquinho, um bloquinho, e suas histórias, que eu acho que precisam ser compartilhadas com o mundo lá fora.

Evanilda Maria Ferreira Cazumbá tem 49 anos e viveu a sua vida inteira na cidade de São Gonçalo dos Campos, interior da Bahia. Filha de dona de casa e dono de mercearia, uma entre 19 filhos do casal, Nilda optou por não ter filhos e começou a trabalhar como professora depois do Magistério, aos 18 anos. Depois disso, tomou posse de um cargo administrativo no serviço público, e lá ficou até os seus 35 anos quando resolveu trabalhar por conta própria, seu lugar… a cozinha.

Aprendera a cozinhar com a sua mãe, e percebendo a oportunidade de utilizar uma casa que o seu pai deixou para atender a uma clientela de peões, começou o seu negócio fazendo comidão: mocofato, feijoada, maniçoba e coisas que tais. Seduziu os cabras e formou clientela. Fez uma experiência com massa de acarajé, gostou, e inseriu o acepipe em seu negócio, como vedete, personagem principal, tanto que batizou a casa como Point do Acarajé.


(toda trabalhada na chapinha luxo no balcão de seu estabelecimento | soltando um feijão com bife em sua cozinha | detalhe do prêmio SUCESSO SUPREMO (tá, meu bem?) que a cidade lhe atribuiu, na parede

Mas não podia deixar de cozinhar para a sua clientela. Forneceria almoços de dia e a tarde prepararia a massa e recheios do acarajé, que vende a partir do fim da tarde. Muito atenta às necessidades de sua clientela, e muito solícita e disposta a atender a tantas quantas lhe fossem possível, aumentou a área de atendimento, construiu uma área cobeta do outro lado da pista, e “botou uma venda” na parte dianteira da casa, disponibilizando pão, ovos e alguns outros ítens de primeira necessidade, além de cocadas e sequilhos feitos também por ela. A área interna ficou pequena para o público cada vez maior, e agora não só de peões, mas gente de toda a cidade, que anseava por opções de pratos mais leves e caseiros. A nossa heroína ampliou as opções, e muito. Saladas de todo tipo, feijões de todo tipo, bifes, lombos assados, galinha de quintal ensopada, comida baiana, quiabada, massas, frigideiras, peixes… o que o povo pedia ela fazia, com aquele amor e dedicação que seduz facilmente o estômago da gente.

Hoje em dia Nilda emprega 5 funcionários fixos, e para atender a sua demanada, trabalha de domingo a domingo das 6h às 22h. Dorme apenas 6h por dia e segura o seu tchan com um sorriso tranquilo nos lábios.
Não satisfeita, ainda atende clientes que encomendam sua comida para recepções, encontra tempo para fazer bolos e canjicas, viaja para Feira de Santana toda quinta para fazer compras, e vive com a chapinha em cima, como vocês podem ver. Quando eu perguntei: “Gata, vem cá, e tu não se diverte não?” Ela responde: “Claro que sim! Não perco as festas da cidade! Treino minha equipe para isso, e dá tudo certo”, toda segura, livre e independente de seu namorido Nelson, gente fina, dono de padoca, candidato a novo post qualquer hora destas.

Eu já tinha tomado algumas cervejotas e estava zonza com o pique de Nilda (e eu que achava que eu dava duro!), e quando já guardava as minhas anotações e colocava a câmera no case, ela ainda me saca de trás do balcão as revistinhas de Tupperware e Avon, para quem trabalha como consultora. “Não me dê esse baque, Nilda, tu ainda encontra tempo para isso?” E ela: “Ô, enquanto o cliente espera no balcão, já dá uma olhadinha nas revistas, não custa nada, né?” É, não custa. Perguntei se ela se considerava bem sucedida, se ganhava bem, e pelo tamanho do sorriso nem precisava responder, mas respondeu com um único e sonoro SIM!

Minha mãe tem muita sorte de ter encontrado esse anjo da guarda, que caiu do céu, quando ela se mudou para São Gonçalo dos Campos, viu? Justo quando perdeu o tesão de cozinhar e ganhou mais restrições alimentares. Nilda faz comida especial para a minha mãe (entregue com pontualidade BRITÂNICA), e nos estraga a todos de tanto que nos mima. Quando estou aqui e não fico afins de cozinhar é só ligar para Nilda:

– E aí, bonitona, tem o que de bom para comer hoje?

– Tem o que você quiser, querida, é só pedir.

E tem mesmo.

§ 29 Respostas para Nilda: uma máquina de fazer comida afetiva

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Nilda: uma máquina de fazer comida afetiva no Pitéu.

Meta

%d blogueiros gostam disto: