Frigideira de maturi

26 de junho de 2012 § 20 Comentários

Eu acho maturi um luxo. Por vários motivos! Mas começando do começo, para quem não sabe, o maturi é a castanha do caju quando ainda verde. Sua extração e utilização é bem típica aqui do nordeste, especialmente onde me encontro agora, no Recôncavo Baiano.

O problema é que comer maturi está cada vez mais difícil, e alguma coisa precisa ser feita, porque eu acho que o maturi deveria ser tombado como patrimônio cultural, especialmente agora que, a meu ver, encontra-se em extinção. Porque veja bem, vá acompanhando: caju tem safra, que acontece tipo em outubro, o que, de cara já determina um acesso limitado. Acontece, porém, que tem ano que não rola caju, a natureza não fica afins. E quando rola tá ocorrendo o seguinte: a extração do maturi é babado, porque sua casca contém uma toxina que irrita, “queima” as mãos. Em resumo, é um trabalho do cão, que machuca, e somando-se a isso o preço baixo pago aos extratores pelo litro, fica fácil entender o porquê do maturi estar desaparecendo da face da terra. Este mesmo que eu usei nesta receita, estava congelado desde o ano passado! Uma verdadeira relíquia, um luxo!


(a vedete em questão)

Pense numa castanha fresca, macia, porém firme à mordida, e este é o maturi, perfeito para se fazer moquecas casado com camarão, normalmente seco, embora eu sempre prefira o fresco. Além das moquecas, a frigideira de maturi também é uma vedete chiquérrima da culinária nordestina, que eu, particularmente, acho das melhores coisas daqui.

Para uma assadeira retangular de 30X20cm, separe: 500g de camarão fresco e limpo, 400g de maturi escaldado rapidamente em água quente, 4 ovos, 1 coco seco pequeno descascado (metade ralado de costas e metade batido no liquidificador com um pouco de água fervente para fazer um bom leite de coco), mas se estiver fora de cogitação para você use coco ralado Sococo sem açúcar hidratado em leite de coco Sococo, 1 cebola roxa (metade picadinha, metada em pétalas para decorar), polpa (elimine a pele e sementes) picada de 2 tomates maduros, 2 colheres de sopa de pimentão amarelo bem picadinho (se você fizer um mix de amarelo, verde e vermelho vai ser lindo, mas se tiver que escolher 1, vá de amarelo pelo contraste de cor e pelo sabor), 2 dentes de alho picadinhos, 1 pimenta dedo-de-moça sem semente e bem picadinha, raspinhas de gengibre, 1 punhado generoso de salsinha fresca, azeite de oliva e sal.

Tempere o filé de camarão com um pouco de sal e reserve rapidamente. Numa panela, deite 3 colheres de sopa de azeite de oliva e todos os temperos para refogar em fogo algo entre médio e baixo; some o coco ralado, o maturi e refogue mais um pouco; agora vá regando com o leite de coco aos poucos (a idéia é hidratar, mas não pode ficar com muito caldo senão a frigideira fica ensopada). Por último, some o camarão, que não deve cozinhar muito, só até ficar rosadinho e tenro, e a salsinha. Só agora acerte o sal, e se quiser, pode somar mais uma pimentinha, desta vez com um pouco de semente, se você gostar de cuspir fogo.

Bom, a essa altura o recheio de maturi e camarão deve estar bombando em cheio e sabor. Reserve um pouco, acenda o forno médio, e vá para os ovos. Separe as claras das gemas, bata as claras em neve, depois some as gemas, bata mais um pouco, pitadinha de sal, e foi. Há quem polvilhe farinha de trigo ou rosca e também some 1 colher de fermento, mas a farinha é dispensável, fica mais leve, inclusive, sem ela. Há quem misture parte do ovo ao recheio para já deixá-lo aerado também por dentro, e o efeito é bacana, mas vc pode também forrar o fundo da assadeira untada com óleo com a massa de ovos, deitar o recheio, e cobrir com o restante (e maior parte) da massa; ou ainda, deitar o recheio no fundo da assadeira e apenas cobrir com a massa de ovos (se preferir assim, use apenas 3 ovos).

É costume no nordeste enfeitar a frigideira com rodelas ou pétalas de tomate e cebola, e eu acho bacana. Quando faço assim, faço um zig-zag de azeite de oliva por cima, mas às vezes polvilho com farinha de rosca e parmesão e o zig-zag de azeite, que formam uma crostinha dourada, fica a seu critério.

Leve ao forno médio pré-aquecido até a massa de ovos dourar, muito cuidado para não passar do ponto, é coisa de 15 minutos!

Eu espero que todo mundo tenha a oportunidade de experimentar uma moqueca ou uma frigideira de maturi antes de fazer “a passagem”.

Minha última frigideira de maturi eu fiz para uma pequena grande mulher, a doce Karine, instrutora de pilates que mudou minha vida para muito melhor.

E agora que a minha última reserva de maturi acabou? Só em outubro, ao Deus-dará. Na fé!

§ 20 Respostas para Frigideira de maturi

  • Geovana disse:

    Você est certa, o maturi está cada vez mais difícil de encontrar. Quando eu vou preparar algo com o maturi eu encontro nas feiras de Santo Amaro da Purificação ou em Feira de Santana , mas somente em tempo de safra. Faço pratos diversos pratos deliciosos.

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  • Viriato Espinha disse:

    eu tô é emlombrigado de moqueca de maturi….quando estava tudo acertado para comer a tal iguaria, alguem mudou os planos e não deu certo….e eu, como era convidado, diga-se tambem….sapo de fora, fui prá onde me levaram…..isso já há mas de 12 anos…….a lombriga é criada, das grandes….mas ainda chelo lá….no maturi.
    em tempo……não foi maturi daquela vez….mas foi caldinho de lambreta….bom que só a peste, visse.

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  • Fabiana disse:

    Eu queria saber como faço pra chegar neste ponto o maturi,pois tenho um cajieiro,mas não sei preparar a castanha verde pra ficar da forma desta da foto ilustrada.

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    • Katita disse:

      Fabiana, não cheguei nesse nível de conhecimento popular ainda. Compro pronto, mas sei que existe melindres para a extração pois a castanha verde queima as mãos. Um dos motivos pelos quais ninguém quer mais extrair para vender a baixo custo e o maturi corre risco de extinção.
      K.

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  • Darci Mascarenhas disse:

    Por favor, alguém tem a receita de frigideira de camarão com maturi, tinha um site rainha do lar que ensinava passo a passo com foto.Só que não estou encontrando.

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  • Katita,babei,viu?mainha fazia maturi refogadinho com quebradinho de aratu pra mim quando eu era pequena,mas agora ela aposentou as panelas e só quer saber de passear,a danada!(tudo bem,ela merece!rs) saudade do maturi!
    Beijos,flor!

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  • Andiara disse:

    Amore, conta pra mim, dá pra substituir o maturi em questão pela castanha de cajú normalzinha, que a gente encontra mais fácil? Sabe como é né… o Paraná fica tão tão tão longe do Bahia, hehehehe
    Mil bjs da Andiara

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    • Katita disse:

      Flor, até que dá… aqui na Bahia usamos xerem na moqueca, que é castanha triturada, mas são outros quinhentos porque aqui o grande lance é a textura da castanha, vê-la e mastigá-la, mas que dá, dá.
      =)
      Beijim,
      K.

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  • Izabel disse:

    Katita, fico babando nessas suas comidas típicas que não estão em nenhum livro de culinária pronta entrega. Acho lindo você cozinhar iguaria ímpar para as pessoas que vc quer bem. Ô espírito evoluído esse seu, menina. Abç
    Izabel

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  • Krys disse:

    Ah Katita, morro de vontade de experimentar a frigideira de maturi mas nunca estou aí na época certa. E se aí anda difícil de encontrar, imagine aqui… Esse fds passou um moço vendendo caju na rua mas era a fruta mesmo, no tradicional…

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  • PatKaori disse:

    Ei K. linda! 😀

    Meu Deus! Eu olhei e achei que era algum tipo de fruto do mar! hahahaha Ledo engano… Ele é retirado tipo, enquanto o caju ainda não amadureceu é? E tirando, não perderia-se o caju?

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  • Tania disse:

    Eu tambem assino embaixo que feijao de corda tem que existir pra sempre…ate porque se mamae souber que pode estar em extincao ela vai surtar. Deus me livre!!! Fiquei aguada pra comer a Frigideira de maturi.

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  • marilene bastos disse:

    Ka, tenho uma amiga que é dona de um restaurante aqui no Rio chamado Aconchego Carioca, o nome dela tb é Katita (p os mais chegados) e ela participa de um grupo que reune chefs d varios lugares do mundo que estão fazendo um levantamento dos alimentos que estão em extinção no mundo todo e buscam verbas p auxiliarem os pequenos produtores desses mesmos alimentos p que continuem cultivando os mesmos, o trabalho é muito legal, qdo econtrar com ela vou perguntar se o maturi está nessa leva, fiquei pasma ao saber que o feijão de corda estava…Ah e falando nela, vc precisa conhecer esse lugar e a sua chará, uma figura….Beijo E eu não morro sem comer esse trem, vou dar um jeito….

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    • Katita disse:

      Marilene, procurei imediatamente pelo Aconchego na rede, o site estava em construção, mas li uma resenha massa com fotos lindas. Deu vontade de pegar o primeiro vôo pro Rio, obrigada pela dica MINHA CARA!
      Não sabia que o feijão de corda estava em extinção, pelo menos por aqui ainda não tenho dificuldade em encontrar, inclusive eu fiz feijão de leite com esta frigideira. Fiquei bastante preocupada agora, e adoraria conhecer e quem sabe contribuir com este movimento de levantamento de ítens em extinção. Achei coisa-linda-de-Deus.
      Beijo enorme e muito obrigada, super rico o teu comentário.
      K.

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