Cozinha Ilustrada apresenta: “Amor abundante”

20 de setembro de 2011 § 11 Comentários


(Ilustração de Andrea May para o Pitéu)

Só amava gordinhas. Obesas. Não tinha nenhum outro critério a não ser o peso. Nenhuma restrição a cor, raça, credo, profissão, gostos, opiniões, militâncias. Sua única condição era que as suas amantes pesassem, pelo menos, 90 quilos.

Fascinava-lhe o equilíbrio precário daquelas mulheres; emocionava-lhe a saúde fragilizada pela hipertensão, colesterol alto, diabetes e doenças coronárias; excitava-lhe a ofegância, o suor no buço e nas dobras, e a insegurança das que ocupam muito lugar no espaço; admirava-lhes sua grande capacidade de amar, um amor tão leal e cheio de gratidão por amá-las gordas como eram, tão sinceramente. E alimentava-lhes com devoção. Cozinhava para elas, servia-lhes e as observava comerem com uma atenção sensual, numa espécie de preliminar do jogo de sedução que começava à mesa e terminava também à mesa, lá pelas tantas. Preparava-lhes as mais pecaminosas, deliciosas e calóricas iguarias… macarronadas, lasanhas, pizzas, sanduíches com queijo e maionese… comprava-lhes sorvetes, geléias, tortas, refrigerantes, chocolates e os mais finos bombons. Não porque as quisesse engordá-las ainda mais, mas porque nada podia proporcionar-lhe maior prazer do que vê-las devorar o pecado sem culpa.

Juvenal havia sido aprovado com louvor no concurso do Banco do Brasil e optou por mudar-se para aquela cidade do interior, onde vivia há quase cinco anos. Por mais discreto que fosse, as suas preferências amorosas foram rapidamente percebidas por toda a cidade. Mas dava-se ao respeito. Era cidadão de bem, possuía automóvel, casa própria e crédito na praça, logo, por mais maldosos que fossem os comentários tecidos às suas costas, ninguém jamais ousou desrespeitá-lo. E em pouco tempo todas as maiores de 90 quilos o desejavam. Casadas, solteiras, velhas, jovens, cochas, pretas, brancas… que obesa mórbida não desejaria aquele homem tão perfeito, que além da preferência pelo seu tipo físico, algo tão improvável, ainda tinha boa condição financeira, era homem de estudo, possuía várias enciclopédias, vestia-se sempre com zelo, cheirava a água de colônia, trazia as unhas lustradas com esmalte incolor e um elegante e reluzente bigode negro. Não era na verdade nenhum galã, embora não fosse feio; era um tipo comum, mas todas as vantagens que trazia consigo, o transformavam no mais belo homem em todo o mundo, aos olhos das pesadas candidatas.

Exceção às casadas, por motivos éticos e estratégicos, Juvenal já havia amado quase todas as gordinhas da cidade, e dizem até que algumas outras vieram de cidades circunvizinhas atraídas pela promessa de amor e pela esperança de exclusividade e casamento, o que estava fora dos planos de Juvenal, que amava intensamente cada uma delas, mas como precisava amá-las todas, não podia jurar-lhes o seu amor eterno. E partiu assim muitos corações.

Diva entrou em depressão; Solange aceitou dividi-lo com Janaína e Iraci; Francisca achou que poderia prendê-lo para sempre quando apareceu grávida, mas foi surpreendida com a informação de que Juvenal era vasectomizado, e sumiu para sempre; Ivonete enlouqueceu de amor; Olívia jurou matá-lo e a si, mas tudo o que conseguiu foi quebrar o pé ao tentar alcançar enfurecida o veículo de Juvenal, depois de um escândalo em praça pública; Nívea tentou vingar-se pichando no muro da praça da catedral, que Juvenal tinha um caso com a mulher do prefeito, o que não era verdade, apesar do enorme desejo da primeira-dama, que poderia ser uma forte candidata, do alto dos seus 103 quilos.

Foi quando Juvenal percebeu que talvez fosse a hora de pedir transferência para uma outra cidade, tão desgastado estava com tantos rebuliços acontecidos ali. Contabilizou um número pífio de gordas que ainda não havia amado, e decidiu que a perda não seria tão grande assim.

Partiu numa manhã de domingo quando a cidade ainda dormia, incerto sobre a escolha do seu novo destino, que ficava no outro extremo do estado, incerteza esta que acabou no instante em que foi recebido, na pensão de Dona Isaura, por sua sorridente filha Genilza, que a julgar pela sua experiência, não deveria ter menos do que 95 quilos.

***
Cozinha ilustrada é uma série de textos escritos por mim, inéditos ou já publicados nos meus blogs anteriores, aqui revisados, e ilustrados por amigos artistas visuais especialmente para o Pitéu. A periodicidade é aleatória. Amor abundante foi escrito e publicado em janeiro de 2009 no blog Rainhas do Lar.

Veja os trabalhos da artista em street art, música experimental, toy art, live paint, canais alternativos de comunicação virtual, e muito mais aqui: http://www.andreamay.com.br

Como adepta do movimento DIY pelo Atelier Coletivo VISIO aqui: http://visioponto.blogspot.com

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