Cozinha ilustrada apresenta: “Papai blefou”

14 de agosto de 2011 § 20 Comentários


(Ilustração de Fabio Braga para o Pitéu)

Eu sempre fui a menina dos olhos do papai. Ele me carregava na cacunda e me levava para todo canto, me exibindo como quem exibe um troféu. Me levava para o barbeiro, alfaiate, feira, para tomar banho de rio, para viajar de caminhão… e enquanto a minha mãe me levava para lanchar misto quente com guaraná depois da missa, meu pai me levava para comer comida de macho. O seu restaurante preferido era o Bokomoko, especializado em caça. Paca, teiu, rã, tatu e cobra, eram algumas das iguarias servidas no restaurante.

Mas eu preciso dizer também que meu pai era um grande galhofeiro. Contava causos e piadas engraçadíssimas incorporando os personagens; se vestia de mulher, agarrava as veinhas p’ra dançar, e principalmente, adorava pregar peças. E não havia quem não caísse nas suas pataquadas, mesmo conhecendo a sua fama. E como não poupava ninguém, até eu me tornei uma de suas vítimas.

Eu devia ter uns 10 anos e ele me acordou num sábado de manhã, dizendo que iríamos fazer a feira e que depois ele ia me levar para comer o melhor peixe da minha vida. Como eu adorava feira e adorava peixe, pulei da cama e me lembro como hoje do collant vermelho de gatinho e da minissaia jeans que usei naquele dia. Ah! E Conga nos pés, claro.

A feira demorou e ainda tivemos que voltar em casa para deixar tudo, antes dele me levar pela primeira vez ao Bokomoko, de maneira que eu estava azul de fome, sonhando com o meu peixinho prometido. Fazia muito calor e eu pedi logo um Crush, sentada numa das mesas externas, olhando o movimento da rua, balançando as pernas e chupando os meus canudos, enquanto o meu pai fazia o pedido no balcão, que não demorou muito a chegar.

Eu devia estar muito faminta mesmo para não questionar a textura e gosto ligeiramente diferentes dos peixes que estava acostumada a comer; tampouco para perceber o quanto o meu pai deveria estar se divertindo. Me lembro apenas da sua pergunta depois que limpei o prato: “Tava boa a jibóia, filha?” Acho que não entendi de pronto, e ele: “Isso aí que você comeu foi cobra, filha”. Hiato. Eu devo tê-lo desapontado bastante porque não esbocei nenhuma ojeriza ou desagrado, afinal a comida estava boa e eu estava satisfeita, e àquela altura não era capaz de associar o que comi com uma cobra. Mas também não achei graça nenhuma e morreu ali.

Acontece que a ficha só caiu mais tarde quando chegamos em casa. A cobra veio de repente, sorrateira, ameaçadora, lustrosa, peçonhenta (embora a jibóia não o seja) e a idéia de tê-la comido me fez vomitar imediatamente. Meu pai ficou arrasado e cheio de culpa ao me ver vomitando; minha mãe ficou uma arara. Não senti nenhuma raiva de meu pai, pois às vezes ele era mais criança que eu, e quase o consolei mas preferi aceitar o merecido dengo. Ele disse para a minha mãe que deixasse que ele ia cuidar de mim. Lavou a minha boca, limpou o banheiro, fez chá de boldo (este sim estava horrível) e deitamos na rede, onde ele me prometeu que nunca mais ia fazer um negócio daqueles de novo com a sua pequena, e fez cafuné enrolando os meus cachinhos por entre os seus dedos até que eu peguei no sono.

Meu pai galhofeiro morreu há 18 anos, mas parece que foi ontem.

***

Cozinha ilustrada é uma série de textos escritos por mim, inéditos ou já publicados nos meus blogs anteriores, aqui revisados, e ilustrados por amigos artistas visuais especialmente para o Pitéu. A periodicidade é aleatória. Papai blefou foi escrito e publicado em setembro de 2010 no blog Rainhas do Lar, e sofreu algumas pequenas atualizações para esta publicação.

Conheça o trabalho de Fabio Braga aqui.

§ 20 Respostas para Cozinha ilustrada apresenta: “Papai blefou”

  • Iroka disse:

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  • Karla Maria disse:

    Amo essa crônica desde que li no Rainhas.
    Bj de boa semana.

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  • Flaviana disse:

    Adoro ler suas histórias… o livro sai quando mesmo?
    Saudades de vc, e do meu pai também, que graças a Deus está vivo mas tá lá longe…

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  • Isabel disse:

    Lindas lembranças, o meu também já se foi, 21 anos, e o que fica nesses dias de comemoração são as boas e velhas lembranças…
    saudade boa… vontade de um abraço….

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  • cathvale disse:

    Crônicas de uma infância feliz! É isso que parece e assim que imagino. Adorei!
    Bjs!

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  • Eliana disse:

    Lindas lembranças né!?!?!
    O meu pai não é criativo a este ponto, mas é figura. Quando ele jogava bola aos domingos, eu ía junto com os meus dois irmãos, no meio daquela homarada toda hahaha Cheios das piadas e até hoje ele vem com histórias que eu fico pensando de onde que ele tira…impressionante que é sempre uma história nova…aos 36 anos ele ainda tem algo que nunca me contou. Também ajudava ele nas coisas da casa…desde a fazer cimento e segurar os fios da tomada para não tocarem um no outro hahaha Ele fazia caipirinha e a gente “molhava o bico”junto…e ninguém se tornou alcólotra…e tão pouco bebemos hj em dia…nem os meus irmãos! Ele ficou doente uns anos atrás e isso o abateu, mas ele está ainda cheio de graça e quando acha alguém pra jogar conversa fora…ihhh vai longe hahahah

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  • Livia Palma(Entre Sergipe e Alagoas) disse:

    Adorei o collantt de gatinho, mini saia jeans conga nos pés e tomando Crush?(Visualizei voce menina com tudo isso e os cachos nos cabelos) Voce devia ser mesmo muito fofinha gata Ele, em qualquer lugar que esteja deve estar sorrindo e lamentando-embora já desculpado, ter feito isso com a téteinha/piteuzinho dele.
    Já havia lido no Rainhas e amo seus textos.
    Vou me preparar pra cirurgia em setembro! O resultado foi benigno os bichos, mas tem que tirar ….nóis tira né?
    Muita saudade,
    Bjs!

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    • Katita disse:

      Amiga, não te liguei ainda, mas até a minha mãe eu acionei para uma reza poderosa. Fiz festão esse fim de semana e o bicho pegou, mas vou te ligar mais tarde.
      Beijo aliviado (mas eu não falei que não ia dar nada?)
      =)
      K.

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  • Simone Marcelino disse:

    Lindo amiga,saudades do meu tbém que já foi pro andar de cima…bjs

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  • Téia disse:

    Querida, que coisa, a descrição do seu pai parece muito com o meu, fiquei emocionada. Só tenho lembranças lindas dele, e assim como o seu foi muito cedo para o céu, aliás há também 18 anos atrás. QUE COISA, NÃO? Lindo texto, Katita, comovente e angelical,apesar de ligueiramente dramático, rsss….Bj grande da Téia aqui de Bsb…

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    • Katita disse:

      Téia, sua linda! Não vou esquecer nunca do cheiro daquele travesseirinho de ervas sobre a chaleira! Que presente reconfortante você me deu! E sim, que coincidência os 18 anos de partida dos nossos pais!
      =)
      Amor,
      K.

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  • Lu Cupido disse:

    Katita,
    Ando sumidinha, eu sei… mas sempre lendo seus e-mails.
    Este em especial, adorei!!!

    Assim como vc, tb perdi meu pai ha alguns anos… mas a lembranca esta tao quentinha em minha mente, que parece ter sido ontem.

    Beijos saudosos,
    Lu Cupido

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  • evelyn disse:

    bofi escandalo esse fabio hein.. haha

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  • Cida disse:

    Ah, Katia querida, lindo seu texto relembrando o primeiro homem de sua vida, seu Pai. Fiquei muito emocionada, pois meu pai também se foi há 18 anos, mas está muito vivo em minha memória, como acontece com você. Depois da dor da perda, fica essa saudade boa demais, não é mesmo?
    Um grande abraço e mais uma vez, parabéns pelas suas palavras nesta data tão propícia.
    Beijos,
    Cida

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  • Fabio Braga disse:

    Essa história combina com meu coroa também!!!

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  • um abraco muito grande pra voce, Katia.
    memorias de ouro, hein!

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  • Joy Cleave disse:

    Que historia linda! Que gaiato o seu pai!

    Katita, vc sempre emocioma com as suas palavras magicas…

    Te adoro, lindona.

    Um domingao feliz pra vc!

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