Cozinha ilustrada apresenta: “Engordou o marido e fugiu de casa”

19 de julho de 2011 § 25 Comentários

Ilustração de Ila Fox para o Pitéu

Nunca foi flor que se cheirasse, a Ester. Desde menina, defendia as suas convicções e perseguia os seus objetivos à maneira dos tratores, esmagando o que estivesse pela frente. Se achava boa e virtuosa porém, afinal, frequentava assiduamente as missas dominicais e pregava com veemência os 10 mandamentos, embora não os seguisse à risca ela mesma. Uma hipócrita, a Ester.

Conheceu o Cleber na faculdade de Biologia, e foi desejo a primeira vista, ele era deslumbrante! Fazia natação desde moleque e tinha aquele fatídico peitoril, asas e barriga tanquinho de tirar o fôlego, de engasgar. Como se não bastasse, tinha olhos brilhantes e uma boca indecente, enorme, cheia de dentes absolutamente perfeitos, de uma brancura imaculada. E vivia a sorrir como um menino, displicente e alheio àquela beleza toda, e tão alto com aquelas mãos enormes capazes de nos acolher inteiras… mas era distraído, o Cleber.

Onze entre dez garotas desejavam casar, parir pelo menos sete filhos do Cleber, e dedicar o resto de suas vidas a lavar as suas cuecas sem economizar Comfort. Mas foi a Ester quem o fisgou, apenas porque assim o desejou, e costumava conseguir o que queria. Enquanto as demais se atiravam, pixavam os muros de sua casa, gravavam-lhe cassetes com canções matadoras e abriam mais dois botões ao cruzarem com ele, a Ester apenas o fitava de longe, atraindo o seu olhar, e era ela quem mais lhe chamava a atenção. Perigosa, a Ester.

Mas também era linda, a desgraçada. De uma beleza natural, que não lhe demandava o menor esforço. Tinha o corpo esguio e firme (como perseguem as matriculadas em academias), sem fazer nenhum esforço, aliás, detestava exercícios físicos e achava aquilo tudo uma grande maçada! Sem dúvida, a natureza fora-lhe muito generosa. Nem mesmo depilação lhe era necessário, pois os seus pelos eram fina e macia penugem que cobria a superfície do seu corpo, ora bem ralinha, ora mais densa, mas sempre macia. Para não dizer que nada fazia pela sua beleza, lançava mão da pinça vez por outra para arrancar uns 3 pelinhos de cada lado da sobrancelha, e fazia as unhas duas vezes por semana, tão religiosamente quanto ia a igreja. Sortuda, a Ester.

Ela tinha um plano: ter aquele homem lindo só para si, casar com ele, ter uma casa espetacular (sem filhos, cachorros ou plantas), e viverem um para o outro. E trabalhou neste sentido, sem muito esforço. Logo estavam casadíssimos! Para o Cleber, a Ester era um anjo de candura, a mais perfeita mulher do mundo, e ainda por cima, era exímia cozinheira, e sendo a gula o mais predominante pecado capital do moço, por causa deste fraco foi que caiu em desgraça.

Acontece que a Ester tinha um pequeno problema operacional para resolver, que era a beleza estonteante do Cleber. Não precisava seguir com o olhar as expressões derretidas das mulheres no restaurante, padaria, cinema, supermercado, academia, ao verem o Cleber. Sabia muito bem o rastro de corações suspirantes que ele deixava por onde passava. E não sentia ciúmes, apenas um risco no ar, um incômodo de pendência a ser resolvida. Não demorou para encontrar a solução: engordá-lo com a sua comida, enfeiá-lo. Não fazia parte dos seus planos ser abandonada pelo seu marido, por causa de uma sirigaita qualquer.

Apenas um ano depois do casamento, o Cleber já não chamava mais a mesma atenção. Havia engordado 18kg, a pele havia perdido o viço, também os olhos e dentes. Dois anos depois, ele havia ganho mais 21kg, sofria com gases e tinha mau hálito. Por outro lado, Ester emoçava e se tornava mais linda a cada dia. Uma vampira, a Ester.

A dieta, ou melhor, o golpe foi muito simples: começou sutilmente com deliciosos risotos a base de creme de leite e queijos, com uma saladinha verde para disfarçar; saladas de maionese com frangos assados com aquela pele crocante; batatas fritas, estrogonofes, rocamboles, pães e tortas doces incríveis, sobremesas meladas de chantilly, e pizzas e chocolates para as “românticas” sessões de cinema em seu fabuloso home theather… sempre havia também uma cervejinha estupidamente gelada esperando por ele, que quando deu por fé nunca mais havia tomado um suco, embora a geladeira estivesse sempre repleta de coca-cola. Mas não podia reclamar da vida, não é mesmo? A Esterzinha o tratava como um rei.

Três anos e 39 quilos mais tarde, a Ester se cansou do Cleber. Incomodou-lhe o seu mau hálito e sua flatulência. Desapareceu. Cleber meio que endoideceu, perdeu o prumo, o rumo, alcoolizou-se, quase suicidou-se. Levou anos para curar-se da depressão, do alcoolismo, e recuperar um pouco da sua auto-estima. Mas sobreviveu, e descobriu o verdadeiro amor nos braços da Cibele, aquela magricela míope que sentava sempre na primeira fila. Com ela teve dois filhos homens, um cachorro, um cágado e foi feliz para sempre.

A Ester teria sido vista pela última vez por um colega de trabalho da Cibele, numa outra capital, enquanto deixava um jovem deus grego na porta de uma faculdade de design. Parecia ainda mais moça e deslumbrante. Um fenômeno, a Ester.

***

Cozinha ilustrada é uma série de textos escritos por mim, inéditos ou já publicados nos meus blogs anteriores, aqui revisados, e ilustrados por amigos artistas visuais especialmente para o Pitéu. A periodicidade é aleatória. Engordou o marido e fugiu de casa foi escrito e publicado em abril de 2010 no blog Rainhas do Lar.

Conheça o trabalho de Ila Fox aqui ou pelo Twiter.

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