Joana Maria de Jesus Santos

8 de março de 2011 § 89 Comentários


(Joana Maria já alfabetizada em 1978)

Joana Maria de Jesus Santos nasceu preta e pobre, em 1921, 24 de junho, dia de São João Batista, que determinou o seu nome de batismo e a sua religião, algumas décadas depois.

O cenário era um pequeno roçado de cacau no Distrito de Itamaraju, próximo ao município de Ubatã, interior da Bahia. Filha mais nova de três irmãos, perdeu os pais quando tinha dois anos de idade, e passou a ser criada pela sua irmã mais velha, de oito anos, que ao se casar, aos quinze, levou-a consigo para outra cidade, deixando para trás o irmão do meio, que ficou ali para cuidar daquele pequeno pedaço de terra, onde criou seus filhos e permaneceu até a sua morte.

Até os seus vinte anos, Joana trabalhou exclusivamente derrubando roçado. Conhecia como ninguém a região, seu clima, sua vegetação, as trilhas do mato. Sua força física e manejo perfeito do facão a destacavam e a tornaram respeitada entre os colegas homens, a quem nada deixava a desejar. E o ano era 1940.

A casa em que moravam tornou-se uma pensão, que abrigava os fazendeiros da região que vinham até a cidade aos sábados para adquirir os proventos semanais para suas famílias. A partir de então, Joana abandonou para sempre o facão, e passou a dedicar-se às tarefas domésticas. Lavava roupa “de ganho”, engomava que era uma beleza no ferro de brasa, e começou as suas primeiras incursões na cozinha, fazendo doces.

Foi quando uma imensa melancolia que logo entendeu solidão, começou a brotar aflita no seu peito motivando-a a constituir uma família. Uma família sem homem. Deles só queria uma coisa: filhos. E conheceu o alfaiate Sebastião, com quem teve a sua primeira filha. A relação não foi a diante, apesar da paixão febril de Sebastião por Joana, até o seu derradeiro dia. A alegação de Joana era a bebida, mas ainda que, por amor, Sebastião tornara-se abstêmio da noite para o dia, de nada adiantaria, pois o real motivo era que Joana não queria um homem dentro de sua vida, apenas filhos. Alguns, não sabia ainda quantos lhe bastariam. E assim, nem o alfaiate Sebastião, nem o biscate Seu Euclides, nem o agricultor Seu Manoel, nem Seu Zuquinha carpinteiro, nem o fazendeiro Seu Alexandre, assumiram o status de homem da casa de Dona Joana, aliás, sequer freqüentaram aquela casa, mas deram-lhe os filhos que queria.

Foram sete filhos no total. Todos vindos ao mundo pelas mãos bondosas da parteira Mãe Ana. Bastava. Estava agora realizada, plena, senhora de sua família. Nunca pediu qualquer ajuda a nenhum daqueles homens. Pouco importava-lhe se tinham recursos ou não. Conhecia a sua própria capacidade de trabalho, as suas competências, e jamais a afligiu o fato de ter sete, dez, vinte filhos para criar. Sabia que não lhes faltaria o essencial até que pudessem começar a contribuir para as suas próprias subsistências.

E assim passaram-se os anos. Joana tomou a frente da pensão. Àquela altura já havia se tornado exímia cozinheira, e a pensão vivia cheia de uma fiel clientela ávida por provar dos seus bifes de fígado, lombo de panela, mantinha de carne do sol com farofa d’água, e galinha de molho pardo. Paralelamente, continuava lavando de ganho, engomando, vendendo banana e carvão em casa, fazendo doces, bolos de puba e aipim assados em fornos de lata de querosene, e cocadas que ficavam expostas à venda na janela da pensão; e ainda encontrava tempo todos os dias para encher uma cesta com seus famosos quibes de arroz, vendidos nas ruas da cidade por um moleque chegado. Sem falar na criação dos sete filhos, que já começavam a ajudá-la carregando latas d’água na cabeça sobre rodilhas pela estrada de rodagem, ou quebrando pedra com marreta na pedreira nos fundos da casa de pensão para fazer concreto.

Viviam unidos e felizes. Se eram pobres, sequer atinavam, vivendo a sua realidade de forma digna, à maneira da Dona Joana. Quando a Tia Maria mudou-se para Almadina, uma cidade vizinha, marchavam todos seis léguas mata a dentro, ao cair da noite, para passar os domingos. No meio do caminho paravam sob uma jaqueira para comer farofa, e lá chegando, a grande diversão da garotada era fazer beiju na casa de farinha.

Para se distrair, Joana fumava cachimbo de barro, ouvia música caipira, e adorava ir ao cinema para ver os seus ídolos, em especial, Vicente Celestino. Nestes dias, usava um vestido de jersey estampado, seu perfume Narciso Negro, e tomava a sua filha mais velha pela mão rumo ao cinema da praça.

Mas chegou uma hora em que a Dona Joana queria um pouco mais para os seus filhos, nem que fosse um horizonte mais amplo. Foi quando o poderoso e gentil fazendeiro, Sr. João da Cruz, um amicíssimo da família, grande admirador da labuta de Dona Joana, que havia se mudado para São Paulo com a família há pouco mais de um ano, convidou-a a mudar-se com todos os seus sete filhos para lá também. Seu João da Cruz era uma espécie de acolhedor de nortistas em São Paulo. Possuía uma enorme casa na Ponte Grande, em Guarulhos, que servia como uma espécie de ancoradouro para os amigos em busca de melhores condições de vida na cidade grande.

Em 1962, Dona Joana partiu de pau-de-arara de Coaraci, no interior da Bahia, para a grande e misteriosa São Paulo, com seis dos seus sete filhos, já que a mais velha ficaria por mais um ano para terminar o Magistério, seguindo depois, na boléia de um caminhão, para encontrar a sua família de novo, quando já estariam estabelecidos em sua própria casinha na Ponte Grande.

Chegando em São Paulo, Joana tornou-se costureira. De dia cuidava da casa e dos filhos, à tarde ia buscar costura no Brás. Algumas das meninas foram trabalhar em casas de família, e os meninos foram trabalhar de engraxate e auxiliar de padeiro. Aos poucos as coisas foram melhorando, todos estavam estudando e melhor empregados, até que a Dona Joana tornou-se 100% rainha do lar. Os filhos começaram a se casar e sair de casa, e Dona Joana achou que era hora de aprender a ler e assinar o próprio nome. Foi quando matriculou-se no Mobral aos 50 anos.

Joana Maria de Jesus Santos, morreu alfabetizada em 1995, aos 74 anos, deixando sete filhos e vinte netos, entre eles, esta que vos escreve.

***

Este post é uma homenagem à minha avó Joana, cujo sangue que corre em minhas veias, trouxe em sua carga hereditária para a minha vida garra, ousadia, coragem, fé, instinto materno de leoa e respeito pela comida.

Homenagem também ao Dia Internacional da Mulher e a todas as leitoras amigas em sua infinita lealdade e gentileza.

Amor,
K.

(!) Publiquei este texto no blog Rainhas do Lar em março de 2009, agora revisado para o Pitéu.

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